PUBLICAÇÃO SEMANAL – ADESG (departamento de Ciência e Tecnologia) 

 

 

 

Atualmente a indústria de cinema nos apresenta inúmeros filmes com o tema de “ZUMBIS”, que nada mais são do que o corpo de uma pessoa morta que volta a se movimentar novamente, sem que isso signifique apresentar vida como conhecemos.

 

Os Zumbis usualmente tem seus atos voltados para fins maléficos; uma “pessoa” (se é que podemos chama-la assim)  sem vontade própria, não possuem raciocínio, cujas reações são sem vida com características de um corpo em decomposição ou desfigurado.

 

 

 

A palavra "zumbi" é igualmente cercada de mistério, mas sua origem pode estar nos termos nzambi ou nzumbi, que, em alguns idiomas do oeste africano, significam "divindade" ou "espírito ancestral".

 

De acordo com os princípios do vodu haitiano, uma pessoa morta pode ser revivida por um sacerdote ou feiticeiro.

Se você acredita ou não neste folclore, não importa, pois imagine agora, se uma pessoa realmente acreditasse que estivesse morta e andasse por ai sentindo que estivesse se decompondo dia a dia, um verdadeiro Zumbi. 

Acha difícil, então não conhece a Síndrome de Cotard.

 

Esta doença faz com que a pessoa realmente se sinta meio morto e meio vivo.

 

 

 

A síndrome de Cotard, também conhecida como síndrome do cadáver ambulante, é uma condição médica na qual o indivíduo acredita estar morto ou que seus órgãos não estejam mais funcionando ou necrosados, ou ainda, de que seus familiares, amigos ou o mundo que o rodeia não existem mais.

 

Foi no ano de 1880, que o neurologista francês Jules Cotard descreveu o caso de uma mulher de 43 anos que sofria de uma forma grave de melancolia ansiosa, com um delírio hipocondríaco incomum caracterizado pela convicção da não existência dos seus órgãos. Alguns outros autores já haviam mencionado casos similares; no entanto, Cotard foi o primeiro a fazer uma descrição detalhada dessa condição.

 

Jules Cotard nasceu em Issoudun, Indre, em junho de 1840. Inicia seus estudos de medicina em Paris, e depois é aceito como interno no hospital Salpetrière nos serviços dirigidos por Broca e Charcot, cuja influência foi decisiva para suas pesquisas sobre a patologia do sistema nervoso.

 

Interessa-se pelas doenças mentais e segue com Lasegue os estudos e clínica, e depois com Falret, diretor da casa de saúde de Vanves, que procurava um adjunto.

 

Começa a trabalhar em Vanves até sua morte prematura, em agosto de 1889, três dias depois de contrair difteria. Durante todo seu período de alienista, ele se interessa pelo estudo da melancolia. Escreveu apenas cinco artigos: (1) Do delírio hipocondríaco em uma forma grave da melancolia ansiosa (1880), (2) Do delírio da negação (1882), (3) Perda da visão mental na melancolia ansiosa (1884), (4) O delírio de enormidade (1888) e (5) A origem psicomotora do delírio (1884) - todos apaixonantes, porque marcados pela fineza da percepção dos fatos clínicos e pela sua coragem em insistir na pesquisa, apesar do negativismo dos pacientes, uma manifestação melancólica ainda desconhecida por não ter sido sistematizada e isolada até então.

 

Esta fineza na escuta fará Lacan no Petit discours aux psychiatres, em 1967, pronunciar: "à bela herança do século 19 que a constitui, integralmente 'em relação ao objeto do campo da psiquiatria, o louco".

 

 

 

Isolado em 1880, este singular delírio hipocondríaco "não tenho estômago, cérebro, nervos", por exemplo, bem recorrente na clínica de Cotard, paralelo de uma sedação das perturbações psicomotoras que caracteriza a cronicidade da melancolia ansiosa. Ela se caracteriza por um certo número de traços como ansiedade melancólica, ideia de danação ou de possessão, a propensão ao suicídio e às mutilações voluntárias, a analgesia, as ideias de não existência ou destruição de diversos órgãos, do corpo inteiro, da alma, de Deus e, sobretudo, da ideia de não poder jamais morrer.

 

Em 1882, Cotard coloca em destaque a negação atrás dos traços habitualmente encontrados na melancolia, que de alguma maneira Griesinger já tinha mencionado - ou seja, ao mesmo tempo em que tem suas riquezas morais e intelectuais, o doente crê ter perdido tudo. Esvaziado, não há mais nada que o faça ter prazer em existir, nem inteligência, nem energia, nem bens.

A principal característica ou manifestação mais patente da Síndrome de Cotard é a ideia da imortalidade ser vivida como um castigo - o delírio de imortalidade obedece a uma lógica da negatividade, não se trata de ser imortal como a ideia do megalômano  paranoico mas, de não poder morrer, é outra lógica, é outra ordem de sofrimento. Inseparável da ideia de estar já morto - a analgesia afetiva - este delírio indica a carência da marca do significante sobre o corpo.

 

Nós poderíamos colocar a equivalência entre a negação e a morte do sujeito da enunciação, própria ao delírio das negações. Exemplo típico é de Leuret (1834), em que uma paciente fala dela mesma na terceira pessoa, pela perífrase, "a pessoa de mim mesma não tem nome, não tem idade, nem pais, ela nunca existiu".

 

Portanto  na Síndrome de Cotard, uma extrema fragilidade desvela um corpo que fica além e aquém das leis, um corpo que se quebra, se espatifa como vidro, aumenta e diminui como elemento suscetível se exposto à dilatação e retração. Trata-se de um quadro que enseja inúmeras considerações clínicas e amplia consideravelmente a possibilidade clínica com a psicose que, como não se ignora, tende a ficar reclusa.

 

 

 

 

RELATO DE CASO

FONTE – JORNAL BRASILEIRO DE PSIQUIATRIA

 

J. é um paciente de 23 anos, do sexo masculino, solteiro, formado em Economia, que trabalha como profissional autônomo.

 

Não apresentava história pregressa de quadros neuropsiquiátricos nem/ou clínico-cirúrgicos, bem como antecedentes familiares de transtornos mentais. Durante a adolescência, fez uso ocasional de Cannabis sativa, sem repercussões socioocupacionais.

 

Há cerca de 2 anos passou a frequentar, assiduamente, festas do tipo rave e a consumir ecstasy, em média, uma vez por semana. Referia-se à ocorrência de sintomas subjetivos, como aumento da sensibilidade a estímulos externos e da libido.

 

 

 

Foi trazido ao serviço psiquiátrico pelos pais com a história de, há 2 meses, ter abandonado o trabalho, permanecendo isolado no quarto com higiene pessoal precária, muito angustiado, relatando que seus órgãos intestinais estavam totalmente "paralisados e putrefatos" e que não se sentia a mesma pessoa.

 

Os pais relataram que não houve entrada de amigos na residência de J., excluindo-se, parcialmente, a possibilidade de J. usar ecstasy, durante o período em que se isolou na residência.

 

Ao exame inicial, o paciente apresentava-se emagrecido, desconfiado, mas sem hostilidade. Mostrava-se orientado e sem déficit cognitivo, com pontuação total de 30 pontos no Mini-Exame do Estado Mental (Bertolucci et al., 1994). A temática da putrefação e paralisação intestinal era irremovível, bem como o relato de que seus órgãos exalavam "intenso odor fétido", provocando-lhe vergonha.

 

Não relatava sentimentos de tristeza nem quaisquer outros sintomas depressivos, como ideias de ruína, de culpa, desesperança ou morte.

 

Considerando tratar-se de delírio hipocondríaco e alucinação olfativa, estabeleceu-se o diagnóstico de transtorno psicótico predominantemente delirante, com sintomas de síndrome de Cotard, decorrentes do uso de estimulantes (ecstasy), mas sem associação com depressão maior. Foi orientado a manter a suspensão do ecstasy, sendo introduzida olanzapina 5 mg/dia.

 

Realizaram-se, ainda, exames de neuroimagem (tomografia do encéfalo), eletroencefalograma e laboratoriais, incluindo hemograma completo, ionograma, glicemia, funções renal, hepática e tireoidiana, todos exames sem alterações.

 

 

Após 2 semanas do uso da olanzapina na dose de 5 mg/dia, encontrava-se mais sociável, com higiene cuidada, embora ainda se referisse aos sintomas psicóticos. Optou-se por elevar a dose de olanzapina para 10 mg/dia.

 

Dois meses depois, o paciente retornou com remissão completa dos delírios somáticos e alucinações. Foi possível, então, reduzir progressivamente a dose da olanzapina até a suspensão em 6 meses, e o paciente retomou integralmente suas atividades laborais.

 

No acompanhamento de 6 meses após a suspensão do medicamento, o paciente manteve-se assintomático, tendo procurado por conta própria o grupo de Narcóticos Anônimos, sem usar novamente ecstasy.

 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

 

Não somente patologias orgânicas e uso de álcool etílico (alcoolismo crônico) podem vir a desencadear a Síndrome de Cotard, mas esta patologia vem aumentando nas ultimas décadas, tendo principalmente sua causa advinda ao uso de drogas ilícitas, tendo a maconha como como provável fator desencadeante inicial.

 

O uso contínuo e diário de maconha pode causar alterações na estrutura do cérebro parecidas com as da esquizofrenia. Em estudo com adolescentes, pesquisadores da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, relataram que as modificações cerebrais estão ligadas à perda de memória de curto prazo, o que compromete o desempenho escolar.

 

Nos últimos dez anos, os cientistas da Northwestern, em conjunto com outras instituições, têm apontado que mudanças na estrutura do cérebro podem alterar a forma como ele funciona.

 

Estudos anteriores já haviam avaliado os efeitos da maconha sobre o córtex, mas poucos haviam comparado diretamente o cérebro de usuários crônicos ao de esquizofrênicos. Esta é a primeira pesquisa a segmentar as regiões da área cinzenta subcortical afetadas por usuários e também é a única a ligar a área com a capacidade de processar informações do momento e, se necessário, transferi-las para a memória de longo prazo.

 

 

 

Publicado nesta segunda na revista “Schizophrenia Bulletin“, o estudo analisou apenas um ponto no tempo e os cientistas afirmam que será preciso um estudo longitudinal para mostrar definitivamente se a maconha é responsável pelas alterações cerebrais e perda de memória.

 

Cerca de 97 pessoas participaram do estudo, incluindo usuários de maconha saudáveis ou com esquizofrenia e não usuários saudáveis ou com esquizofrenia. Os que usaram maconha não fizeram uso crônico de qualquer outra droga.

 

A Conexão entre maconha e esquizofrenia, mostra que dos 15 usuários esquizofrênicos no estudo, 90% começaram a usar a droga intensamente antes de desenvolverem o transtorno mental. O uso crônico da maconha já havia sido relacionado com o desenvolvimento de esquizofrenia em pesquisas anteriores.

 

 

O abuso de drogas de rua populares, tais como a maconha, pode ter implicações perigosas para os jovens que estão desenvolvendo ou vão desenvolver transtornos mentais - relatou outro autor do estudo, John Csernansky. - Esta pesquisa pode ser pioneira a revelar que o uso de maconha pode contribuir para as alterações na estrutura do cérebro que têm sido associados com a esquizofrenia.

 

O uso crônico de maconha pode aumentar o processo de doença subjacente associada com a esquizofrenia - analisou Smith. - Se alguém tem um histórico familiar de esquizofrenia, ele pode estar aumentando seu risco de desenvolver o transtorno fazendo uso crônico da droga.

 

 

 

 

 

 

 

“Oficializar ou liberar o uso de drogas, especialmente a maconha será como abrir uma fábrica de esquizofrênicos”. 

 

 

Nelson Bruni

Diretoria de Ciência e Tecnologia

 

 

 

 

 

 

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